O título do post de hoje é um verso extraído de "Beatriz", música de Chico Buarque. Há poucos anos, sentado numa carteira de faculdade, uma professora nos apresentou essa canção. Para alguns, já conhecida; pra mim, uma triste surpresa.
De cara, o que me chamou a atenção foi o nome - Beatriz. Há tantas músicas no repertório popular brasileiro com nomes femininos... Ana Julia, Gabriela, Daniela, Natasha... nomes aparentemente comuns, terminados em vogais, fáceis de construir rima. No entanto, Beatriz, nome um pouco mais elitizado e terminado em consoante 'z', e convenhamos, a última letra do alfabeto. Sim, última.
Começa a música... "Olha... será que ela é moça... será que ela é triste... será que é o contrário... será que é pintura... o rosto da atriz...". Meu Deus. Seis versos e eu já estava passando mal.
Continuando... "Se ela dança no sétimo céu... se ela acredita que é outro país... e se ela só decora o seu papel... e se eu pudesse entrar na sua vida...". Nesse momento, dez versos depois, olhei ao redor. Percebi olhos indiferentes, esperando a música terminar. Eu não olhava pra ninguém e ninguém me olhava. Beatriz, num sábado à tarde, era para poucos. Era para mim.
Segunda estrofe... "Olha... será que é de louça... será que é de éter... será que é loucura... será que é cenário... a casa da atriz...". Pronto. Eu já sabia. Comecei a chorar. Confesso que não me importei em estar em meio a algumas pessoas, a maioria colegas apenas, sem grandes intimidades. Chorei mesmo. Coloquei o rosto sobre as mãos e deixei aquela música tocar, e ela tocou em mim.
"Se ela mora num arranha-céu... e se as paredes são feitas de giz... e se ela chora num quarto de hotel... e se eu pudesse entrar na sua vida....". "Isso é tortura", pensei comigo. Eu era Beatriz. Era a minha história. A música continuou, mas não prestei mais atenção. Eu só queria chorar. Os relógios provavelmente marcavam umas dezesseis horas, e faltava pouco para irmos embora. Eu não queria ir. Queria apenas que algo acontecesse. Queria que todas as lágrimas caídas há uma semana num quarto de hotel, assim como dizia a música, se unissem e lavassem essa memória algoz.
Voltei a prestar atenção na música novamente... "Diz se é perigoso a gente ser feliz.... olha... será que é uma estrela... será que é mentira... será que é comédia... será que é divina... a vida da atriz...". Não, eu já não aguentava mais. Um simples derramar de lágrimas virou um choro visivelmente sonoro atraindo a atenção de todos. Ouvi dizerem... "o que ele tem?"... Não interessava o que eu tinha, mas o que eu sentia. Um desespero, uma vergonha, era a minha história, ali, pra todo mundo ouvir.
"Se ela um dia despencar do céu... e se os pagantes exigirem bis... e se um arcanjo passar o chapéu... e se eu pudesse entrar na sua vida...". Fim. A música parou e eu continuei. Estava em estado de choque. A platéia estava a me observar, ou seja, os pagantes, e exigiam bis daquele momento, queriam que Beatriz despencasse de uma vez por todas naquele momento constrangedor. Levantei o rosto, olhei as sobrancelhas eriçadas de cada um a me analisar caladamente. Uma pessoa naquela sala não me olhou apenas com os olhos. A professora, vestida num casaco marrom, me observava e enfim afirmou: "Você sabe quem é Beatriz", sorrindo lentamente após dizer isso.
Eu sabia, com certeza. Há muitas Beatrizes no mundo, assim como eu. Beatrizes cujas vidas são permeadas de "se", de condições, que são hipotéticas, que apenas decoram seu papel nesse mundo... que brincam de atuar, que encenam, que são frágeis, de louça... que moram num cenário, numa ilusão, que em minutos é desmontado e entregue às forças do tempo... que são estrelas, divinas, que chamam a atenção e que muitos abusam desses predicativos para 'passarem o chapéu' e coletarem o resto da sua vida medíocre, doa a quem doer.
Só vai doer a quem se render à atriz. Beatriz.

Nenhum comentário:
Postar um comentário