
Resolvi acordar cedo e escrever. Ontem, relendo uns e-mails enviados, me deparei com algo que fazia tempo que não lia. É uma citação de Clarice Lispector que diz "Escrever é uma forma de não mentir o sentimento". Puxa... como isso é verdade... Com o passar dos dias, percebo que somente escrevo quando estou triste, diferente de algumas pessoas que escrevem a qualquer momento. É inevitável que todo meu sentimento de tristeza se expresse por meio dessas palavras, pois nem todo mundo que escreve é um "fingidor", principalmente "fingindo ser dor", como diz Fernando Pessoa. Por mais que alguns escritores consigam transcender a tal forma de mostrarem-se tristes em alguns momentos, é difícil acreditar que isso se equipare à real tristeza, como essa que sinto nesse momento.
Tive uma surpresa muito boa na terça-feira à noite. Felizmente tive uma notícia a qual eu ansiava por, pelo menos, seis meses: um retorno que, naquele momento, era equivalente a um valioso prêmio na loteria. Entretanto, disseram-me que a verdade deveria ser dita antes de eu realmente manifestar meus mais sinceros sentimentos. Assustei-me com esse discurso. Parecia algo grave, como se eu tivesse sido enganado por todo esse tempo.
Hoje é sexta-feira. Passei o dia de ontem inteiro pensando como seria nosso fim de semana, afinal, mataríamos a saudade um do outro. Mas não. Ao conversarmos novamente, notei que havia um certo medo de me encontrar tão cedo e, apesar de ter dito que queria abrir o jogo pra mim, sentia que realmente queria fazer isso, mas que temia pelo momento, ou por mim, talvez.
É, acho que dessa vez será o fim. Eu não aguento mais isso. Meus sentimentos parecem viver numa eterna montanha-russa. Às vezes estou lá embaixo, como agora, olhando pra cima e vendo aquele emaranhado de ferros colocados uniformemente, vindo em minha direção. Parece que nunca chegarei ao topo. De repente, quando menos espero, lá estou, e o barulho da engrenagem, que antes era bastante monótono, transforma-se num ensurdecedor grito de desespero, pois estou a despencar novamente, a toda velocidade. Não há controle sobre isso, pois eis que estou lá no alto novamente, mais tranqüilo, como se alguém me afagasse. Mas os momentos de glória são restritos, e uma nova queda se aproxima, e logo após uma curva que me joga pra esquerda, depois pra direita... Era um mecanismo que testava minha coragem e me dilacerava a cada movimento brusco. A maioria das pessoas se deixam levar pela montanha-russa. Levantam os braços, gritam, agem como se aquilo fosse passageiro. Eu não. Há em mim um mecanismo de defesa que me faz segurar firme, não olhar para os lados e, se possível, fechar os olhos. A única coisa que não consigo controlar é o som dos gritos dos que estão ao meu redor naquele vagão, gritos estes que zombam de mim por eu ser diferente deles. Eu tinha medo de cair do carrinho. A cada movimento mais intenso, minhas pernas batiam na lateral do compartimento, e eu continuava a ouvir o grito dos outros. Porém, a realidade, às vezes, te coloca em xeque, e você é obrigado a agir da maneira como não deseja. O vento proveniente da velocidade do carrinho forçava meus lábios a se abrirem e ensaiarem um provável sorriso. Isso é o pior de tudo, pois eu não tinha motivos para gritar de alegria como os outros, e muito menos sorrir.
Enfim, terra firme. Desço o quanto antes e fico a observar os outros. Uns, descabelados; outros, rindo e querendo fazer uma nova viagem. Garotos e garotas sabem de mãos dadas, apoiando-se uns aos outros. Cada um de um jeito, mas todos felizes. Só eu estava triste. Embora eu estivesse com as pernas bambas assim como eles, eu não tinha em quem me apoiar naquele momento. Apenas no frio pilar da estação.
Parece que altos e baixos eram coisas corriqueiras na vida daquelas pessoas. Era impressioante como se recuperavam rápido daquela turbulência, pois, alguns passos depois, os cabelos já não estavam mais desgrenhados e todos andavam naturalmente. Menos eu. Não conseguia sair dali. Queria descobrir se encontraria alguém que saísse da montanha-russa tão abalado como eu. Esperei o retorno do próximo vagão. Um assistente veio em minha direção e me indagou se queria um pouco d'água, pois aparentava não estar bem. Recusei e agradeci. Ansiava pelo próximo vagão, queria ver se alguém era como eu. Ele chegou, enfim. Todos desceram e a mesma cena se repetia. Pessoas descabeladas, pessoas de perna bamba... mas todos felizes. Mas um fio de esperança correu nas minhas veias. Um rapaz, que estava lá no final, parecia diferente dos outros. Nossa, que alívio. Alguém que pudesse me fazer companhia, nem que fosse imaginária. Saber que outra pessoa além de mim saía da montanha-russa meio transtornado me deixava conformado. Não me sentia mais uma aberração. Tudo em vão. Passos depois, ele já estava recomposto. Passou por mim, desceu a escadaria e o perdi de direção.
Vagões partiam e chegavam... pessoas iam e voltavam, subiam e desciam, gritavam e sorriam... e eu ali, mas já sem esperança. Só agora percebi que havia algo a mais que doía em mim. As pernas. Bateram tanto na lateral do carrinho que só agora, com o corpo frio, manifestaram-se. Era mais uma prova de que o subir e o descer nos deixavam feridas, expostas até. Só que algumas pessoas lidavam muito bem com isso, nem se importavam, na verdade. Como se isso fosse natural na vida delas. Mas pra mim, não. A instabilidade me deixava cada vez mais alucinado e distante daquilo que mais queria: alguém que pudesse se sentar ao meu lado no carrinho e vivenciasse comigo as alegrias e os disabores desse mundo.

Um comentário:
Pessoas com capacidade de pensar constantemente
Parabens pelo post
espero vc lá no meu blog
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