terça-feira, 29 de julho de 2008

Hijo de la Luna...


Hoje acordei cedo. É que ontem, por incrível que pareça, fui pra cama meia-noite e dez. Há quase um mês eu não partia para os braços de Morfeu antes das duas da manhã, por isso até fiquei surpreso. Mas antes disso, eu precisava fazer algo que estava me incomodando: organizar o quarto. Nossa, e como estava bagunçado! Havia livros por todos os lados, mal tinha espaço para eu me deitar na cama, sem contar os sapatos todos espalhados. Uma vez, li num site que a gente não deve dormir com o quarto bagunçado, pois isso influencia na qualidade do nosso sono. Bem, não que eu seja supersticioso, mas toda vez antes de dormir eu arrumo o quarto... principalmente ontem, pois eu pretendia dormir muito bem para enfrentar mais esse dia. E não é que deu certo? Dormi por seis horas profundamente, mas não sonhei. Ainda bem. Ultimamente, tenho tido uns sonhos muito horríveis, pesadelos, na verdade. Noite retrasada, sonhei com pessoas nuas descendo de uma árvore em meio a uma forte chuva, e detalhe, uma dessas pessoas era um velho amigo de infância que já não vejo a uns oito anos, mais ou menos. Acordei meio risonho. Afinal, nao era todo dia que eu sonhava com pessoas nuas descendo de uma árvore.. (risos).. até porque, essa cena é bastante bizarra.

Meu quarto ainda está escuro. Já passa da metade da manhã e não me deu vontade de abrir a janela. Há algo lá fora que não quero ver. O sol? Talvez... embora seja indispensável para nossa sobrevivência, não é a minha estrela predileta. Prefiro a Lua, mas nem sei se ela estará visível hoje durante o dia, e por mais que estivesse, seria ofuscada pela estravagância do astro-rei.

Falando em sol, vi uma animação na internet há alguns dias e fiquei assustado com a nossa insignificância perante essa vida. Tratava-se de uma comparação entre o tamanho dos nossos planetas com algumas outras estrelas existentes no universo. Fiquei perplexo, não apenas por saber que nosso sol é um mísero graozinho se comparado a Antares, mas pelo fato de que, se eu abrir aquela janela agora e tentar olhá-lo, será bastante difícil, pois, para os pobres terráqueos, aquela estrela é algo que nos assombra, como se fosse possuidora de nossas vidas. Daí eu me lembro de que há outras muito maiores, muito mesmo, fazendo com que a gente, praticamente, tenha uma existência quase que patética.

Devo me esconder da realidade? Não sei se consigo.. a janela fechada talvez seja ainda pelo medo que tenho de ver as coisas como elas realmente são.

Hoje prefiro à Lua ao sol, conseqüentemente, a noite ao dia. Mas quando criança, me recordo de uma novela em que havia um personagem que, nas noites de lua cheia, tinha que se trancar numa gaiola, pois, quando nasceu, sua mãe o ofereceu como afilhado à Lua, e ela o queria lá nas alturas de qualquer forma. Eu tinha pavor dessa novela, inclusive da trilha sonora dessa cena, que até hoje me dá certos arrepios. Hoje me recordo disso e vejo que o autor da novela teve como base a história de uma antiga ópera, mas isso não vem ao caso. O que mais me impressionava era como as cenas eram feitas. O rapaz começava a suar, gritar, tinha que sair correndo e se amarrar ou trancar em algum lugar, pois, assim que a lua cheia aparecesse, ele começaria a subir a qualquer momento, meio que hipnotizado.

A novela já havia acabado e eu mal podia ver a lua fora de casa. Me aterrorizava, me fazia dormir com a cabeça coberta nas noites mais quentes como medo de que ela me levasse. Tudo isso embalado àquela música da cena, instrumental, que me fazia correr e fechar as janelas quando sabia que, naquela noite, encontraria a lua cheia no céu.

Passado muitos anos, hoje a Lua é algo que me chama muito a atenção. Cheia, principalmente. Assim que aponta no horizonte, no início da noite, corro e fico a observá-la, quando possível. Gosto de ver aquela cor, diferente de quando ela já está bem alta no céu. É como se ela tivesse estreado aquele momento aos nossos olhos, envolvida numa nebulosidade cor de laranja. Puxa, como aquilo é bonito! Fico imaginando as pessoas que moram no campo, cuja visibilidade desse momento deve ser bem melhor do que a nossa. Fico imaginando a força da luz que deve iluminar aquele breu assustador dos arredores...

Entretando, o sol, por mais que seja muito menor do que outras estrelas por aí, numa questão de hierarquia, é superior à Lua. Ainda por cima, todo esse luar que me fascina, ironicamente, só acontece devido ao sol, que a ilumina, refletindo sobre mim essa luz solar disfarçada de beleza.

Sol, realidade. Lua, realidade passional.

domingo, 27 de julho de 2008

Esquadros...

E mais um aniversário se finda. Um pouco diferente do ano passado... sem enxaqueca, sem cheiro algum. Acordei com uma mensagem no celular vinda de uma velha amiga. Levantei, abri a janela. Nenhuma nuvem no céu. O tempo árido dessa época do ano me deixa meio ébrio, meio depressivo. Arrumei a cama, desfiz a mala da viagem, juntei as roupas sujas e o lixo, passei pela sala, brinquei com a gata que ronronava no canto do sofá e saí para o quintal, observando aquele céu azul e esfumaçado. Era como se eu procurasse uma resposta pelo que me passava naquele momento, algo que viesse e me trouxesse aquilo que eu mais queria.
Recebi abraços das pessoas de casa, além de uma amiga que me fez uma agradável visita. Cortamos um bolo encomendado pelo meu pai, mas me recusei a ouvir o "Parabéns pra você", pois eu, sinceramente, não tinha muito o que comemorar. Comemos, bebemos, rimos um pouco e a noite se fez aos meus olhos pela janela da sala. O meu aniversário estava acabando, e a sensação de vazio era maior do que de manhã.
O telefone tocou. Saí correndo, pois ansiava pelas felicitações vindas da pessoa que mais amo. Não era quem eu queria. Aliás, nem sei se essa pessoa sabe que hoje é meu aniversário.
Vou pra cama pensando na chuva daquele dia, na chuva que marcou aquele momento que foi único pra nós dois. Chuva essa que se contrasta com a aridez de hoje, de mim.
Sozinho, dormirei.

sábado, 26 de julho de 2008

Será mesmo um feliz aniversário?

Faltam poucas horas para meia-noite. Amanhã é dia 27 de julho, dia do meu aniversário. Completarei 23 anos. Não pensem que a inauguração desse blog foi propositalmente marcada para essa data, porque não foi. Isso realmente é uma mera coincidência.

Nesse mesmo dia, há um ano, viajando devido a um congresso, essa data foi comemorada com uma enxaqueca daquelas. Sim, é verdade... voltando para o hotel, minha amiga tentava me convencer para sairmos e comemorarmos, até porque estávamos numa cidade diferente e o clima seria propício para isso. Entretanto, me recusei, pois já estava com aquela dor insuportável. Como era noite e não conhecíamos bem a cidade, ficamos perdidos. Ao vermos um rapazola parado em um ponto de ônibus, paramos o carro, pedimos a localização do hotel o qual estávamos hospedados e ele, singelamente, disse que ficava próximo da escola a qual estava indo, pedindo para que déssemos uma carona a ele. Minha amiga, a motorista, me olhou como se me perguntasse "será que ele é perigoso? E se ele nos assaltar?". Mas num piscar de olhos, percebemos que ele era mais inofensivo do que um filhote de gato. Ao entrar no carro, ele puxou conversa, disse que era muito complicado ter de ir à escola, pois tinha que pegar dois ônibus diferentes para conseguir chegar ao destino desejado. De repente, ele se dirigiu a mim, perguntando: "e o senhor, é esposo dela?". Mal sabia ele que minha amiga é bem mais velha que eu e, naquele dia, eu tinha acabado de completar 22 anos, e, pra mim, seria bastante estranho ser "esposo" com essa idade. O fato é que ele nem havia visto meu rosto e, ao me virar pra trás e dizer "não, somos apenas amigos", ele se desculpou, pois havia percebido que de "esposo" eu não tinha nada. Dobrávamos esquinas e mais esquinas, parávamos em diversos semáfaros e nem o destino dele nem o nosso queria dar as caras.

Havia algo naquele percurso que me incomodava. Não era exatamente a dor que me atacava a cabeça, mas um cheiro... um cheiro conhecido, que ao mesmo tempo era bom e ruim. Alguns segundos depois, percebi que o tal cheiro vinha do garoto. Isso mesmo, era dele esse cheiro, mais especificamente do cabelo dele. Provavelmente era um condicionador de marca Neutrox que eu usava quando criança. O mais engraçado era o fato de eu me lembrar exatamente do odor desse produto sem ao menos ter contato com ele por, pelo menos, uns 12 ou 13 anos! No entanto, os problemas estavam apenas começando. Esse cheiro era algo que me incomodava, me fez voltar no tempo e relembrar de muitas coisas boas e ruins também. Acontece que não contive as lágrimas que, inesperadamente, começaram a brotar dos meus olhos. Tratava-se de um choro calmo, sem nariz escorrendo.... eram apenas lágrimas, as quais, por sorte, não podiam ser vistas por nenhum dos dois dentro do carro, pois era noite. Esse garoto, de uns 16 anos, com o passar dos quarteirões, era exatamente o oposto daquilo que suspeitávamos a princípio, isto é, de que ele poderia ser perigoso. Escorregando um pouco nas conjugações nominais, ele nos guiava: "agora a senhora segue mais dois quarteirão e vira à esquerda...". Isso era o de menos. Provavelmente devia ser um garoto de família humilde, pois, embora ele usasse o uniforme da escola, não usava nenhuma blusa de frio, e naquela noite estava muito frio mesmo. Ele disse que não estava com frio não, mas... sei lá, só sei que esse garoto foi o suficiente para me deixar inquieto. A gentileza e a educação dele me atraíam... era algo engraçado, como se eu pudesse fazer algo pra ajudá-lo, além de ter dado a ele aquela carona até a escola. E aquele cheiro, meu Deus, aquele cheiro... me remetia às mais distantes lembranças...

Chegamos a tal escola. Ele desceu do carro, nos agradeceu, minha amiga agradeceu pela ajuda, e eu fiquei apenas a olhá-lo. Ela acelerou, virei pra trás e o vi atravessar a rua, carregando um caderno e um estojo pequeno. "Adeus", pensei. E o cheiro não queria me deixar em paz, continuou me cercando até eu sair do carro, já no estacionamento do hotel, tentando, agora, enxugar as lágrimas pra que ninguém visse.

Elevador, terceiro andar, corredor, chave eletrônica, maçaneta, interruptor, cama. Me joguei com o cara no travesseiro e chorei, chorei, até soluçar. "Ninguém podia me ouvir mesmo", pensei. Aquilo era um desabafo por tudo o que tinha acontecido naquele dia, naquele carro, durante aquele ano todo, durante aqueles 22 anos que eu não podia impedir que se completassem.

Até que o telefone tocou. Era minha amiga perguntando se eu tinha melhorado e se havia mudado de idéia quanto à comemoração "daquele dia super importante", na concepção dela. Recusei, é óbvio, e fiquei ali tentando olhar através da janela, que estava meio emperrada. Era uma noite fria. E assim, passou-se mais aquela noite, marcada por uma intensa dor de cabeça, um garoto e um cheiro.